domingo, 21 de novembro de 2010

- tudo bem, querida [2];

tudo bem, uma merda. tudo mal, nunca esteve pior, desde a hora do famoso recado. assim acaba o amor jurado de um ano inteirinho? de um telefone publico, entre zumbidos e vozes, desculpa querido, não posso falar, tem gente esperando.

nem a consideração do falso olho azul na cara. e se caio duro e mortinho ao ouvir a sentença de morte? te dispensava de assistir à execução, o tiro de misericórdia na nuca. misericódia, pô nenhuma! sabe lá o que é, cara?

egoísta e pérfida, só uma bandida capaz de oi, tudo bem (e no mesmo fôlego, de certo sorrindo o tempo inteiro), tudo acabou querido, é o fim, não me procure mais, se me vir na rua (nos braços de outro?) finja que nunca me conheceu, assim a gente não sofre. não sofre, a gente, pô?

fale por você, sua cadela. e a mão suada e fria? e a lingua no sal? o vidro moído das entranhas? a tremedeira do pé torto? aqui estava numa boa, de repente o bruto murro na cara, espirra olho, sangue do nariz, caco de dente e tudo bem querido?

minha única fonte de alegria agora de todas as dores e aflições? você, meu cálice de vinagre e fel, a broinha de cinza fria? dá um tempo ô cara. isso não se faz. não é assim que um amor acaba. com tiro na nuca, a volta do parafuso nas costas, o soco na cara.
[...]

(dalton trevisan)

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